A batalha que não terminou: a Anorexia que acompanha a vida.
- Adriana Borowski

- 18 de mai.
- 8 min de leitura

A anorexia nervosa (AN) costuma ser vista como um transtorno da adolescência, mas muitas pessoas que desenvolvem o transtorno na infância ou adolescência o carregam por décadas — em alguns casos com recaídas e em outros com comportamentos anoréxicos persistentes. Essas mulheres, agora na casa dos 40, 50, 60 anos, convivem com uma “sombra” que se projetou na infância ou adolescência, refinou-se com o tempo e permanece muitas vezes silenciosa e invisível para familiares e profissionais.
Com o envelhecimento da população e maior atenção ao impacto ao longo da vida, crescem estudos que investigam como a anorexia se manifesta e persiste em mulheres de meia-idade e idosas.
Estudos de acompanhamento a longo prazo mostram que o curso da AN é heterogêneo. Algumas pessoas apresentam recuperação estável após tratamento na adolescência; outras apresentam recaídas anos depois; e um subgrupo desenvolve um curso crônico com persistência de comportamentos alimentares restritivos e prejuízo funcional.
Prevalência e subnotificação em mulheres maduras
Pesquisas específicas em mulheres de meia-idade mostram que sinais de transtornos alimentares e preocupação com peso permanecem comuns, com níveis elevados de insatisfação corporal, comportamentos restritivos e diagnósticos sublimiares (que significa limite, fronteira) em mulheres entre 40 e 70 anos. E quando falamos de diagnósticos sublimiares no contexto de transtornos alimentares, estamos nos referindo a casos em que a pessoa apresenta sintomas significativos e sofrimento real, mas não preenche todos os critérios diagnósticos estritos para ser classificada como tendo um transtorno alimentar "clássico".
O DSM-5-TR descreve a apresentação típica dentro dessa categoria:
Anorexia Nervosa Atípica: o indivíduo apresenta todos os critérios para Anorexia Nervosa (restrição alimentar severa, medo intenso de ganhar peso e distorção da imagem corporal), exceto o peso, que permanece dentro ou acima da faixa de normalidade, apesar de uma perda de peso drástica e rápida.
"Sublimiar" não significa "Leve"
Um dos maiores perigos é a percepção equivocada de que, por não ser uma "Anorexia plena", o quadro é menos perigoso.
Importante: Pesquisas mostram que os riscos médicos (complicações cardíacas, desequilíbrio eletrolítico) e o sofrimento psicológico de quem tem um transtorno atípico são tão graves quanto os de quem tem diagnósticos "fechados" e o risco de mortalidade e o impacto na qualidade de vida são equivalentes.
A prevalência formal de Anorexia Nervosa nessa faixa etária é menor do que em adolescentes, mas o número absoluto de mulheres maduras com história prévia de anorexia ou com transtornos alimentares persistentes é clinicamente relevante — e muitas vezes subdiagnosticado por profissionais de saúde que não esperam encontrar transtornos alimentares em pacientes mais velhas.
Estudos epidemiológicos de referência (como o conduzido pela Dra. Nadia Micali e o acompanhamento de Mangweth-Matzek & Hoek) com mais de 5.000 mulheres na faixa dos 40-50 anos apontam os seguintes números:
Prevalência ativa (últimos 12 meses): cerca de 3,5% das mulheres acima de 40 anos sofrem com um transtorno alimentar ativo.
Prevalência ao longo da vida: aproximadamente 15,3% das mulheres nessa faixa etária já preencheram critérios para algum transtorno alimentar em algum momento da vida.
Casos crônicos aos 50 anos: pesquisas longitudinais mostram que cerca de 16% das mulheres que tiveram um transtorno alimentar aos 20 anos continuam cronicamente doentes ou sofrem recaídas severas por volta dos 50 anos.
Existem várias razões pelas quais comportamentos anoréxicos podem ressurgir ou persistir, como:
História de início precoce: quanto mais longa a duração da doença na juventude, maior o risco de curso crônico.
Gatilhos ao longo da vida: transições importantes (divórcio, luto, aposentadoria, doenças crônicas, menopausa), mudanças no peso e comentários sociais sobre corpo podem reativar padrões restritivos aprendidos na juventude, mas muitos desses casos identificados na maturidade são de transtorno iniciado na juventude, que acompanharam todo o curso da vida.
O sofrimento psicológico e as implicações psiquiátricas de adultos que vivem com um quadro subclínico de anorexia por longos anos são profundos e multifacetados e especialmente a Anorexia Nervosa Atípica (OSFED) é frequentemente descrito por especialistas como uma "tortura invisível". Por não apresentarem o corpo extremamente magro que o senso comum associa à doença, essas pessoas enfrentam um tipo de angústia psicológica muito específica e, muitas vezes, mais solitária, além de comorbidades psiquiátricas, como depressão maior, transtornos de ansiedade generalizada e social, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), transtornos da personalidade (particularmente traços evitativos e obsessivo-compulsivos) e abuso de substâncias.
Os principais pilares desse sofrimento psíquico e emocional:
1. O paradoxo da "invisibilidade" e a invalidação
O maior peso emocional para o adulto maduro é a falta de validação. Como o peso pode estar na faixa considerada "normal" ou até acima, os sinais de alerta são ignorados por amigos, familiares e, tragicamente, por médicos.
Gaslighting médico: é comum que adultos com anorexia atípica busquem ajuda para sintomas de exaustão e ouçam que precisam "comer melhor" ou "fazer mais exercícios", o que reforça o comportamento patológico.
O mito do "não sou doente o suficiente": a pessoa sente que não tem o "direito" de pedir ajuda porque não atingiu o estado de emaciação extrema. Isso gera um ciclo de culpa onde ela se sente uma "farsa" tanto na saúde quanto na doença.
Risco suicida: AN apresenta uma das maiores taxas de mortalidade psiquiátrica; ideação suicida e tentativas são mais frequentes em quadros crônicos, especialmente quando há comorbidades depressivas e desesperança por melhora.
2. O conflito com as responsabilidades adultas
Diferente de adolescentes, o adulto maduro tem uma estrutura de vida que o transtorno "ataca" diretamente:
A "máscara" da funcionalidade: eles costumam ser profissionais de alto desempenho e pais/mães dedicados. Manter a fachada de que "está tudo bem" enquanto a mente está obcecada por calorias drena a energia vital.
Isolamento social estratégico: eventos de trabalho, jantares de negócios e festas de família tornam-se campos de batalha. O adulto começa a evitar esses compromissos, prejudicando sua rede de apoio e carreira, causando solidão crônica e sensação de estigma que aumentam o sofrimento e mantêm o ciclo de doença.
3. A vergonha da "doença de adolescente”
Existe um estigma social de que transtornos alimentares são "fases da juventude" e o adulto maduro sente uma vergonha profunda por, aos 40 ou 50 anos, ainda estar "lutando com o espelho".
Sentimento de que deveriam ser "superiores" a essas preocupações, o que gera uma autocrítica devastadora.
A percepção de perda de tempo — "já passei da idade disso" — alimenta quadros depressivos graves.
4. O impacto no corpo que envelhece
Emocionalmente, lidar com o declínio natural do metabolismo e as mudanças corporais da maturidade (como a menopausa ou queda de testosterona) é aterrorizante para quem tem anorexia subclínica.
Medo do descontrole: o corpo maduro não responde à restrição da mesma forma que o corpo jovem. Quando o peso não cai como "planejado" pela mente doente, a ansiedade atinge níveis insuportáveis, levando a comportamentos de purgação ou exercícios compulsivos.
O perigo do socialmente aceito
Uma barreira crítica ao reconhecimento da anorexia nervosa na maturidade é a validação social de comportamentos que, clínica e funcionalmente, são sintomáticos. Tendências contemporâneas — jejum intermitente, “clean eating”, dietas de exclusão, exercício intenso, contagem obsessiva de calorias, foco em proteínas — muitas vezes recebem elogios sociais e são apresentadas como disciplina, autocuidado e longevidade. Para mulheres com história de AN, essas práticas podem operar como máscaras que legitimam privações severas.
Jejum intermitente: além de ser promovido como saudável, pode servir de justificativa social para deixar de se alimentar sistematicamente.
“Clean eating”: alimentação limpa” radical, exclusão progressiva de grupos alimentares que se transforma em ortorexia e em pretexto para redução calórica extrema. Restrições alimentares moralizadas e dietas especializadas (veganismo estrito, regimes detox, jejuns intermitentes extremos) são muitas vezes celebrados como escolhas saudáveis, mesmo quando promotoras de restrição e ansiedade por comida.
Pesquisas qualitativas mostram que esta linguagem moral sobre comida facilita que comportamentos de risco passem despercebidos ou sejam reforçados por círculos sociais e, como a busca obsessiva pela alimentação "pura" transiciona de um estilo de vida para uma patologia restritiva.
Saltar refeições, “contar calorias obsessivamente”, podem ser interpretados como disciplina ou autocuidado em vez do sinal de um transtorno grave; isso contribui para subnotificação e menor procura por tratamento. Fontes de divulgação também descrevem esses comportamentos como normas culturais e normalizam o que clinicamente pode ser sintoma.

Exercício compulsivo: frequência e intensidade elevadas são admiradas como determinação, ocultando a compulsividade e necessidade de compensação do que foi ingerido.
Recusa social em torno da comida: não participar de eventos que envolvem comida, preparar refeições para os outros e quase não comer, explicando ausência nas refeições como escolha ou desconforto físico.
Esses comportamentos normalizados atrasam a identificação do problema por familiares e profissionais, além de reforçar a vergonha vivida pela própria paciente.
Hoje há um contorno cultural que valoriza dietas “saudáveis”, restrição calórica e regimes rígidos de exercício — e nem sempre é fácil distinguir entre práticas dietéticas socialmente sancionadas e comportamentos patológicos.
Implicações para avaliação clínica em mulheres maduras
Profissionais de atenção primária, ginecologia e geriatria precisam perguntar diretamente sobre padrões alimentares, peso, frequência menstrual histórica, histórico de fraturas e exercícios compulsivos — especialmente quando a paciente tem história de AN na juventude.
A avaliação psiquiátrica deve ser proativa e multidimensional, integrando aspectos médicos, nutricionais e psiquiátricos.
História psiquiátrica completa: episódios depressivos, ansiedade, TOC, uso de substâncias, ideação suicida, histórico de tentativas;
Avaliação de personalidade, rigidez cognitiva, alexitimia, trauma;
Função cognitiva e impacto no funcionamento sócio-ocupacional;
Padrões atuais de alimentação: jejuns, exclusões, rituais alimentares, exercício compulsivo;
Avaliação social: suporte familiar, redes de apoio, estresse crônico, responsabilidades de cuidadora.
Função cardíaca (ECG) e eletrólitos, especialmente se houver purgação;
O que a evidência e as diretrizes recomendam para tratamento de adultos
A evidência em adultos é mais limitada que na população jovem, mas diretrizes contemporâneas e revisões sistemáticas recomendam abordagens integradas e baseadas em terapias específicas:
Terapia psicológica focalizada: modalidades recomendadas para adultos incluem CBT-E (terapia cognitivo‑comportamental especializada para transtornos alimentares), MANTRA e SSCM;
Nutrição e reabilitação do comer: suporte nutricional gradual, psicoeducação sobre necessidades do envelhecimento, reintrodução de padrões alimentares flexíveis e reabilitação funcional (cozinhar, comer em contexto social).
Psiquiatria: tratamento das comorbidades, manejo do risco suicida, e suporte farmacológico quando apropriado.
Rede de apoio: envolvimento familiar - psicoeducação a familiares sobre riscos, limites e formas de apoio sem reforçar controles; atenção ao impacto familiar e à possível necessidade de intervenção nas relações significativas.
Barreiras ao cuidado e recomendações práticas
Subestimação por parte de médicos: muitos profissionais não buscam ED em pacientes maduros, levando a atraso diagnóstico. Programas de formação e triagem em atenção primária podem melhorar detecção.
Estigma e aceitação social de comportamentos restritivos: campanhas públicas que distingam “saúde” de “obsessão”, “disciplina” de “sinal de sofrimento” e que abordem saúde como cuidado, não punição,
Formação de profissionais para identificar sinais atípicos em idades avançadas.
A anorexia na maturidade frequentemente é a continuação de uma batalha iniciada na juventude, refinada e camuflada por mecanismos sociais que premiam a restrição. Além dos danos físicos, o sofrimento psiquiátrico e emocional é profundo: depressão, ansiedade, risco suicida, isolamento, luto pelo tempo perdido, rigidez cognitiva e perda de sentido de vida. Descontruir a cultura que normaliza comportamentos perigosos, ampliar a percepção clínica e social e oferecer cuidados multidisciplinares sensíveis à idade são passos essenciais.
Saúde não é punição, é direito, cuidado contínuo e, muitas vezes, um processo de reconstrução que demanda tempo e empatia.
Referências
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